Poemas para mulheres

Encontros

           PARA SUZEANE.

Quando novamente te ver

Terei teus olhos primeiro

Em qualquer das estações, primeiro terei teus olhos

Vindo, vindo, vindo ao meu encontro nos portos, nas paradas de ônibus…

No meio do tumulto das minhas lembranças, sempre encontro primeiro os teus olhos

Depois dá-me teus braços…

E abraçados ficamos, como magma que seca lentamente nossas fúrias.

            Sobre as fadas

                PARA DANIELLE.

Sim! As fadas existem

Às vezes visitam-me pela manhã

Escondem sua nudez nos lençóis ou passeiam

voluptuosas pelo quarto

Depois saciadas, desaparecem na luz que entra pelo vão

Sim! As fadas existem.

                        Motivos

Acontece que teus lábios me interessam

Que teus cabelos me endeusam

Acontece que teu olhar me ama sempre

e me entorpece teu hálito

Acontece que teus pés caminham comigo e tuas mãos são finas

taças de bronze ofertando o vinho

Acontece que teus braços me aprazem no abraço

Que em tuas pernas ondulam sereias nadando em meu mar

Acontece que contigo procuro em mim palavras livres.

Mourisca

Se te quero é porque não te amei

Não tive sonhos contigo

Em luas demasiado claras para ver-te feneci

À espera da brisa do teu hálito fumei invernos

Evitei encontros

Fechei-me ao quarto das dúvidas

Queimei na mansa espera mil velas de silêncio

Fiz que não percebia o passar das horas

Não medi mais a pulsação das ânsias

Nem contive sorrisos inesperados pelas ruas ao ser observado pela mímica do povo

Fui cilada de mim nas esquinas

Amei as testemunhas da minha revolta

Incitei minha sombra em caminhos tortuosos

Rasguei a prova da minha esperança

Incriminei meus olhos ao ver-te

Elaborei sinônimos de angústia

Desfiz cronogramas, cometi injustiças!

Esvaziei enredos de orgulho no cálice das noites

Escrevi embaralhados versos na terra das minhas linhas

E guardei uma sensação secreta que não falei por palavras.

Dos amantes

Altas luas guardam as lembranças

Hálitos que aqueceram invernos noturnos

Saíamos das palavras, dos discos, dos improvisos do jazz

Evolávamos pelas ruas, tardávamos minúcias

Fomos a luta, o belo, a luz das esquinas…

O caminhar das primaveras…

O rosto vermelho da rosa em tuas mãos.

                        Passeio de Elisa

Ali em frente oprimido pelas dunas um filete

d`água entrega-se em tributo a Netuno

O mar calmo beija os pés da musa

Real visagem passeia entre gaivotas

Ela desliza, delicada em superfícies de pedras

Na areia esculpe passos para longe

Condena meus olhos a horizontes.

 Uma noite

Tenho tuas imagens nos meus olhos

A saliência dos teus lábios na pele

Teu perfume evoluindo em minha voz

Tenho teus anéis acariciando minhas mãos

Teu coração sulcando fúrias nos meus lábios

As roupas arrancadas do teu desespero…

Tenho a dor do teu poema

A loucura, o calor das tuas entranhas

As palavras que dissestes aos meus ouvidos.

Cantigas de uns dias

PARA THAÍS.

Tal qual as cartas lancei à mesa meus sonhos.

Nos meus olhos guardei entristecências de auroras.

Levei em conchas minhas águas nos caminhos…

Dancei meus olhos em horizontes incriados.

Comovi luares nos mistérios das noites.

Avivei primaveras em setembro.

Descortinei segredos atrás de estrelas.

Plantei raízes nos ventos.

Convidei nuvens para a dança.

Aticei almas em fogueiras de quimeras.

Rasguei encantamentos em soluços.

Abri caminhos nas leivas.

Plantei o grito dos brotos.

Ruminei planícies em meus passos.

Levantei o sol ao fim da tarde.

Incauto desejo

Não quero saber seus significados

Eu quero é arrancar seus sentidos

Apossar-me das suas naturezas

Da matéria que corta o vazio vindo a mim

Eu quero o terror da sua dor borbulhando nas taças

Quero estrelas plantadas em ti

Quero o gosto selvagem da carne

Quero a fuga passando e perdendo-se no fio do seu fim.

De mar e ilha

Surge um dia o momento primeiro

O desenredo da primeira voz e do primeiro olhar

E não mais se esquece dos belos cabelos tempestuados de mar

A alegre calma nos lábios cortados de inverno

Não mais se esquece dos passantes da cidade em seus olhos,

a brisa, as palavras…

Numa indefinição do jazz surges em minhas distâncias

Como horizontes encontrando meus braços.

Nós que não somos

Nem falei da minha casa que podia ser sua

Da guitarra que treme emblusada sobre a geladeira

Da capa de disco em meio ao trigo

Daqueles pinheiros que foram sombra pra nós dois

Da areia noturna em teus pés

Nem falei ao teu lado na pedra que escrevias

Nunca estivemos juntos na pedra

Estivemos em outro tempo e o mesmo perdeu-se…

Ficaram teus olhos que me olham da água do mar.

Poema na tua pele

Escrevo um poema nas tuas costas

Acarinho cada palavra no teu corpo

Desenho nas enseadas da tua boca

Trago água ensalivada de espumas do teu mar

Nesse mar em que vivo naufragado

Sou escriba entranhado no doce papiro de teus poros

Arranho tinta louca de língua nos mamilos em flor dos teus seios

Rasuro nas tuas coxas a lavra de minhas mãos plantando delírios

Deslizo nos teus braços a pena de minhas esperanças.

Ir-se

Não!

Não venha aproximar-se

Você que trouxe a mim todos os subúrbios

Você que trouxe a mim antigas quimeras, depois fugiu…

Desapareceu do meu coração atravessado por um

domingo morno

Cruzou a enseada para outro destino

Olhamo-nos longe e depois abanamos silêncios

Não podemos mais nos morrer.

Nos vemos

                        PARA SILVINA.

Atravessamos a noite ventados em velas de sonhos

Transitamos princípios

Miramos nossos olhos, dois mares de prata enluados na pampa

Conhecemos o gosto do sereno noturno

O pergaminho dos lábios dizendo em silêncio

A nuvem de nossas distâncias

A lavra dos pensamentos abertos na aurora

Nas altas estrelas de um céu azulado dormimos.

Lembrança de um quadro não pintado

PARA NATÁLIA.

Paredes sem tinta na casa do louco.

não tem quadros,

nem nada de belo, nem feio.

O louco pintou um quadro da lembrança.

Um rosto de mil faces.

Uma delas era ela

Lábios de mil sabores.

Um deles não tinha gosto.

O nariz era muito estranho.

Parecia ter andado por caminhos distantes.

Carregava ainda um aroma antropofágico.

As orelhas traziam lembranças de sons marinhos

e uma pérola negra com brilho de séculos.

Seus cabelos

raios solares oscilando no espaço,

fios guardiões de segredos

Sua testa contava pouco.

Pouco tempo na milenar linhagem da vida.

As sobrancelhas denotavam cuidado

Eram simétricas demais

Passavam por pedras das mais duras,

sem movimento brando

O pescoço nervoso

parecia vibrar na raiva do silêncio

Os seus seios ocultavam carícias

principalmente do lado direito

E os olhos!

Ah! Os olhos azuis que mais amo

Os olhos azuis são de Natália.

As Brumas do Porto

                               PARA CARLA T.

Há uma chuva instantânea de mistérios

Onde olhares não desprendem das saudades

Num vazio embebedado, inútil descaminho

Vem a sombra de perfumes divagar anoiteceres

O anteceder do abraço alegre-triste empalideça os horizontes de

quimeras que se encontram ao fundo das distâncias e dos mares

O Tâmisa trague os domínios de além-mar

O flash cauterize seu instante na fita fotográfica do presente

O espaço indetermine meu desolo

As fachadas entre o cinza se revelem

O cotidiano flane pelas formas

Olhos meus arrastem o intermédio das paisagens

O tempo esconda-se na névoa e se resuma breve nas ondas desse mar insinuante

em minha morte

Na despedida há sempre um nunca mais do até rever-se.

Como deveria ser

PARA FRAIA.

Se você me perguntasse se lhe amo,

Eu não diria lhe amo.

Essa palavra que diz tudo é vazia e não diz nada.

Diria que quero sentir seu cheiro no abraço.

Ver você amarrar os cabelos.

Dançar ao meu lado.

Olhar-me.

Roçar as pernas nas minhas.

Sentir seu calor

Seu perfume

Tocar sua face com carinho de sedas

Levar-lhe para ver meus horizontes

Dividir contigo meus sonhos.

Ter você sob os lençóis do mundo.

Eu seria seu amante e você minha menina

Abriria as cortinas da minha vida

Colocaria os meus braços ao dispor de sua morte.

Beberia sua vida em taças de vinho,

e quando acabasse o vinho

eu choraria nas taças

e então beberíamos lágrimas.

                        Da espera

Vou esperar-te com os olhos na rua

Com loucos desejos por tua boca

Vou esperar-te até que venhas

Que tragas teus mares azulados de fogo

Que chegues insana, mareada, convulsa…

Que traga na carne pontas de pedras,

pedaços de seda, coisas quaisquer…

Vou esperar-te encontrando tua hora

Comendo os anseios, ilhado e faminto

E quando chegares e vieres vazia te darei

minhas ilhas, enseadas, marinas…

Senhora Dona

Passeava livre por entre os cômodos da casa

Acompanhava o espaço ocupado por aquela beleza

Quando no banho escondia segredos na água

Depois, fera sedenta, estremecia desejos na pele

Rugia o felino de suas entranhas

Era desespero e fome

Então exausta, punha-se fraca a exalar o ferormônio da loucura.

Sinhá Mocinha

Sinhá Mocinha sai à rua em desaforo de beleza

Miro Sinhá Mocinha vindo em mim

Para onde vai Sinhá Mocinha?

Ali atrás do horizonte ver a nuvem

Mas que diacho!

Também estou indo ver a nuvem

Então vamos juntos – afirmou Sinhá Mocinha.

Onde estiveres

Vou buscar-te atrás dos teus desejos

Compor-te em minhas mãos feito o poema

Traduzir-te na minha língua a crueza da vida

Vou buscar-te para que sigas comigo

Para que sinta-se segura aos meus olhos

Para que venhas à meus lábios sedenta de amor

Vou buscar-te desfazendo lonjuras

Rimas inacabadas, coisas impossíveis…

Cometerei pecados e não pecarei

Vou buscar-te como água em sedentas lonjuras

Como um arquiteto buscando a perfeita forma

Sendo um circo montado, um palco em Pasárgada

Vou buscar-te ouvindo os ecos dos teus passos

Salivando tua voz, desejando tuas luas

Rasurando tua boca na tinta da noite

Vou buscar-te para tatuar em ti meus abraços

Recitar-te lentamente a voz do meu sonho

Para retirar-te o punhal da tua dor vou buscar-te.

Da última vez

Então é não!

Você não quer!

Depois de tanta espera você não quer!

Ah! E todo meu delírio, minha vocação por ti

Aonde ponho tudo isso?

Aonde ponho minha insônia

Minha terna insônia

Como vou sonhar sem esperanças?

Como vou atravessar o céu para te ver?

E onde porei a fúria da minha mão procurando a tua?

Como seguirei sem par, atônito, sem par…

De uma beleza de mulher

Ela veio assim, um raio de sol a invadir as frestas da manhã

Como um desejo antigo ofertado a meus olhos

Ela veio assim como um barco que volta do mar

Como um olhar a procurar outro olhar

Como um desespero cheio de amor ela veio

Ela veio assim no meio das ondas da noite

Entre as galharias do inverno

Sorrindo veio matar-me, todos os sorrisos estavam nela

Como uma garrafa que esvazia ela veio a morrer em mim

Ela veio assim cheia de ventos vazios no meu rosto

Querendo minha carne ela veio

Tendo um barulho de copo sobre a mesa ela veio

A rasurar minha boca ela veio

Dizendo: – Meu nome é Dor, ela veio.

Olhos de loba

Sabes que nos seus olhos tem uma paz ancorada

Um tumulto tomando sol que reflete as tonturas de um início de inverno

E o vento que percorre teus nervos permeiam as vozes do caos nas retinas

que pulsam teus olhos de loba

Deves às tempestades do mar cavas de cores que molham enseadas galopadas

de fogo nas areias escaldantes de tuas miradas

E o mundo é cinzento e azul e é verde e é neve nessas ondas de mangue que

vem do teu mar

Tens no teu pelo um fogo azulado que desenha no céu a nuvem de sonhos que

habita em teu faro

Uma loba devora tua voz que voa no vento o uivo de vida lagunado de luas e doces gaivotas

Carregas o vento noturno que fere a fera da fúria de tuas neblinas cheias de morros e

matas de estrelas

E o plano das terras das tuas estepes tem sangue de caça molhando teus lábios de loba

enlunada

E desce em tuas pernas a penugem de cores que vem dos teus olhos.

Aviso

Escrevo nesse papiro o que minhas mãos trouxeram das curvas que tive em minha boca

Por não haver espaço entre os beijos amantes da noite e do dia que fomos nós mesmos

um som do infinito

Te lembro que fostes caminhos de sedas e carne trigada de pão e de leite nos seios do amor

Lembre que os uivos doados à noite ecoam florestas, desertos, estrelas, enseadas do sol

Saibas ainda que a voz do desejo insinua minha língua no ventre da terra nascida em teu

corpo

Cuide a memória do sonho vivido no fundo do mundo, no beco, na selva, na relva e na flor

Crie em teus poros uma mão sempre minha, seja meu livro trazido nos dentes e folheie

comigo as ausências de nós

Desperte sorrindo no meio das flores plantadas por nós e do pólen recrie minha vida em tua

vida na chama e no pó

Agarre em seus nervos talhados de fúria a crua carícia faminta e insana que nasce de nós

Leve suave suas mãos aos cabelos e abra de leve um sorriso de pernas ao lembrar que sou

vós.

Os jardins do seu corpo

Eu preciso tocar seu rosto para saber se esse desenho na sua boca é verdade

Se há selvagens éguas nas salivas de sua língua

Eu preciso focar seus olhares e mover as terras de suas raízes

Macerar seus cabelos nas mãos e segurar a flor habitada no vão das suas orelhas

Eu preciso queimar as palhas da sua pele com o fogo da aurora que nasce na flor

do seu útero

Acarinhar as árvores do seu corpo e retirar as cascas secas dos galhos outonados da sua

pele renascida de invernos

Eu preciso dos seus seios que saltam dos prados do peito e desafiam a beleza das flores

do céu

Olhar os pássaros que aninham-se em pêlos na dança que o vento desloca nas folharadas

soltas das suas pernas redemoinhadas de tufões escarlates

Eu preciso das ardências perfumadas do seu hálito lambendo o pântano da minha loucura

desaguada em sua carne

Nos enflorestados musgos doces que nascem das suas mãos segurar a pedra para sempre

do destino.

Mulheres de maio… 

Nascidas da terra vertida nas águas do céu

Seus ventres de flores dão vida aos frutos de carne e mel

Olhares de amores surgem na luz, na voz, na aflição!

Beijos de mares alongam suaves seus braços de ondas molhadas de fé

Geram raízes, caminhos e coisas saídas dos gestos amados de mães

Carregam sementes e lançam à terra chuvas de sol

São elas vertentes de águas correntes, lavas quentes, rochas, pães

Flores que vivem florindo e dizendo sorrindo que somos amor

São elas que ensinam o voo ligeiro da vida e da dor

Por elas se sabe o caminho do meio, do seio e da cor

São elas as vozes no mundo emanadas do pólen voador

Mulheres plantando, regando, suando, teimando na faina o grito da flor

Reluzem seus passos no olhar que protege, encanta e desaba no amor.

Entre tantas minha mãe!

Bilhete para Antônia

Quantos poemas terei de escrever para que olhe-me através da palavra

E dos teus olhares nasçam relvas desbravadas de tinta a focar os meus lábios

Quantos decibéis minha voz terá de ter para me ouvir furtar teus silêncios

Quantas cartas enviarei para que respondam teus olhos à minha esperança

E nessas palavras estejam as vozes desejosas de mim abraçando meus medos

Quantos sonhos terei de sonhar para um te alcançar num campo de flores

E lá esteja sorrindo uma lua encantada nascida em tua boca que aceita meus uivos.

Isadora Duncan

PARA A PEQUENA ISADORA DEDICO ESSE POEMA.

“Dançar é sentir, sentir é sofrer, sofrer é amar… Tu amas, sofres e sentes. Dança!”

Isadora Duncan

Bastava o corpo estar ali

O céu alinhar estrelas

Ter um palco para sedas

Um pulsar rebelde do sonho

Ela dançava ao ritmo das veias

Das marés enluadas

Da luz arrancada do sol e do corpo

Quem a via ritmava-se

De loucuras estéticas

De liberdades até então não sentidas

Ventos tempestuosos levantavam seus braços

Vulcões fumegantes levantavam suas pernas

No alto céu ela girava os tufões de seus pés

Bailavam seus olhos florescidos na alma

E conseguia ser pássaro.

Da folha dos lábios

Para seus lábios vermelhos

Estrelas, danças e sóis…

As cores de meus olhos desenhados na fúria e na luz para seus lábios vermelhos

Os desejos pulsantes de minhas veias risquem meus gestos de amor

para seus lábios vermelhos

Que tudo queime ao fundo da terra e renasçam nas lavas

quentes rochas para seus lábios vermelhos

Que eu te ame em todo céu e voe sempre na águia fulminante as garras

aguçadas para seus lábios vermelhos

A força dos mares assumam meus braços e espraiem ondas quentes nas enseadas

convocantes para seus lábios vermelhos

Que suas relvas sejam naus de lindas sedas enveladas no oriente e naveguem

em meus mares o prazer do vento livre para seus lábios vermelhos.

4 respostas para Poemas para mulheres

  1. Parabéns pelo blog, amigo Odilon. Abraço.

  2. Aline disse:

    Senti falta do teu poetar e dei uma passadinha por aqui! Abraço, Odilonge!

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