Quilombo dos Palmares

PARA DONA LURDES

Naquele ano de 1630 os escravos fugidos dos

cativeiros ergueramum Quilombo

A opressão pintava com sangue

Ardia o ódio das vozes doridas

O senhor e o escravo

O reduto da luta, a maior delas:

O Quilombo dos Palmares!

Milhares de negros aldeados nessa parte da África

Nesse solo de além mar

De Alagoas à Pernambuco liberdade zumbizando no ar

Aqui onde a palmeira Pindoba é rainha e Zumbi é rei

não se foge do capitão do mato

Não embrenha-se na mata com a esperança de ser livre

Aqui o estalo do açoite não diz: morre maldito!

Aqui se resiste!

Nesse território não se morre fácil

O Quilombo é nosso!

Não tem senhor de engenho dizendo:

Dou-lhes farinha e carne seca

Toma um gole de cachaça e esquece tua dor insana

Deita-te no chão e esmorece, mas não sonha

Sonhar é proibido para ti peça feia e magra

 

Temos frutas na tropical paisagem

Caça, peixes, solo fértil

Argila para a cerâmica

Rapadura, aguardente

Feijão, batata- doce, mandioca

Somos milhares: dez mil, vinte mil, trinta mil, não sei…

Estas casas primitivas cobertas de folhas de palmeira

Paliçadas duplas de madeira

Estes homens da Guiné…

Mestiços, indígenas espalham-se por sessenta léguas

Todos eles com sua fé e ninguém rouba senão morre

 

São tradições africanas

Coisas que se falam de padrões e normas éticas

O território Palmarino não tem ordem lusitana

 

Corre, corre quem vem lá?

Sou fugido, quero paz, posso entrar nesse Quilombo?

Pode sim! Aqui o amor à liberdade por 65 anos

espantou o inimigo

Fizemos deles enxovalho!

A nós pagavam tributos esses malditos senhores!

De nós compravam alimentos esses mascates

Em troca davam-nos armas e esporro

Somos heterogêneos!

Estão aí as mais variadas nações africanas

Algumas culturas da costa guineana, o catolicismo popular

Às vezes algum jagunço cai nas armadilhas do mato

Incursões policiais reconduzem outros à senzala

Ateiam fogo às choças

Os levam confiscados pra Recife

Esta regra desde 1669 existe por Bernardo Enriques,

governador dos mais patifes dessa tal capitania

Mas depois deles vieram outros e mais outros

Num certo tempo vieram mil de uma só vez

Foram expedições inúmeras

Algozes militares ou não

Todos eles reles!

Cristóvão Lins, Capitão André da Rocha, Manuel Lopes…

Eram todos repelidos na guerra de guerrilha

O movimento quilombola toda hora se mudava,

toda hora se partia

 

De repente pararam numa trégua

Custos de guerra deixaram em paz o grande e

forte Ganga-Zumba

Palmares respirava

Fizeram um acordo

Delimitaram áreas para se viver em liberdade

Se é que se vive livre nessa terra

Tomaram suas armas

Ganga-Zumba envenenado morrera

Prenderam João Mulato, Canhonga…

Como os sonhos de Zumbi também prenderam

Liberdade é difícil eu bem sei

Queriam rendição?

Nova trégua?

Queriam o fim do Quilombo?

Sempre quiseram e Palmares resistia

Um ataque final precedia

O que seria? O que seria?

Sertanismo de contrato

Capitulações das mais frias

Jorge Velho fez acordos com o marquês de Montebelo

Perdão para crimes, isenção de impostos, munições e armas

Tudo isso e muito mais naquela trama havia

Marcharam galhardamente para serem

rechaçados estes malditos vilões

Eram índios, eram brancos

Matando a negros e índios

Eram homens, eram homens

 

22 dias de cerco, chegavam lentos, tantos e tantos

Era o ano de 1694

A noite tomada de medo

Tomada de negros

A noite toda negra espreitava a retirada dos pretos

Zumbi fugia dia 6 de fevereiro

Foi um devaneio, um impulso, não sei…

 

Pelo Quilombo foram morrendo, caindo feridos,

sendo aprisionados, fugindo…

Fugindo de novo?

Para onde? Para onde?

Pelo Quilombo sangue negro cor da noite latejando gemidos

 

Ó África! Ó África!

 

Estas marcas que carrego é de ferro quente

Estes olhos negros são filhos teus ó continente

Por favor, me salva, me redime

Zumbi nosso rei morreu

Decapitaram-no e sua cabeça espetaram na praça

principal de Recife

À vista de todos descarnando

Por favor, me salva dessas mãos ordinárias ó África

Me leva com você ao meu poente

Estão queimando tudo

Morte aos brancos estes lusos senhores!

 

Ainda lembro uma tarde mansa

Os pequenos brincavam

As mulheres cantavam

Depois lágrimas molharam este chão de mil estrelas

Numa noite de horrores

Rostos negros de horror e sangue!

Um mito, um homem…

Para estes que fugiam do martírio infindo

Eis um poema do tamanho da África.

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Sobre Poeta da Garrafa

Sou o Poeta da Garrafa. Odilon Machado de Lourenço nascido no pampa, ventado em minuanos, procurador de esmos e lonjuras. O que busca caminhos e olhos, palavras e sonhos. O que segue no claro do sol e da lua, o que navega e silencia à beleza. O que lavra a terra, águas e céu, plantador de passos, horizontes, sementes de amor e ternura. O que vai a colher miragens, tomar sombras, redemoinhar sem leme. Sou a distância dos dias e das noites que andam comigo contemplando o mundo. Sou brumas revoadas pelo som das auroras, amanhecido de velhas histórias e delírios. O veio, o nascedouro de uma loucura, mas sou sublime se contemplares meus olhos e ouvir meus sentidos. Sou folheador de paisagens, miscigenado brasileiro da Latino América, ouvidor de marulhos e brisas, caçador de estrelas. Olhador de fogueiras, enritmado de blues, samba e versos. Sou uma deriva com porto.
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4 respostas para Quilombo dos Palmares

  1. Jorge Machado Soares disse:

    Fugindo de um martírio infindo… do tamanho da África.
    Muito bom! Parabéns Poeta Odilon! Abração!

  2. Drika disse:

    Bah muito bom poeta! Boa noite!

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