Poemas ao Norte

                                                                                BR 101

Há um tempo viajando na cabeça do poeta
Um tempo rodando aquém e além das luas
Revirando os séculos num livro sem páginas
E há o tempo das máquinas na BR 101
O trânsito de espadas cortantes da estrada
Ou vem ou vai!
Ninguém passa ao meio senão para o sangue
Tempo de fumaças nos olhos
De corações batendo forte
Tempo com destinos rápidos e viagens rápidas
Apenas a seiva dos ossos sustenta a espinha da vida
E a vida acelera deixando poeiras lavadas nos para-brisas embaçados
Criando um novo modo de continuar-se enxergando pouco através da estrada
Os dias amainam na beleza do bando de pássaros pousados no campo
Em seu voo vão os olhos do poeta cobrindo meio céu e meia terra
E nada vendo além de metades num caminho migrante
Os dias são para a luz o que a noite segreda ao escuro
Desperta na voz dos faróis um instante de cores e continua o segredo
A velocidade faz valer o esquecimento do relâmpago
que segue fumegando sobre a via
As noites são corações de beija-flores que não conseguem
diminuir o batimento para a hora do sono
É tempo de poema noturno, mal dormido, tempo de ir para frente
Mesmo sendo a frente um lugar desconhecido
Insone como a carga pistonada nos motores da estrada
vai à noite rodando
Quem dirige a máquina deve saber pisar fundo
Acelerar para além sem sair da estrada
Estar na pista é voar na veia sem frenagens
Na estrada amassar a via ou ser amassado é uma roleta girando
A vida segue ou vira carne de formigas rondadoras das margens
Os demais são domínios da poeira, fuligem ou ferrugem nas margens
Não se pode hesitar um instante, ou é estrada ou é margem
Sirenes não bastam para a hora do choque, da queda ou do fim rodado na estrada
O tributo do asfalto é borracha, os demais são das margens
Tudo se nivela no rolo listrado da estrada
As margens sustêm o que sobra
Quase sempre é não vida amassada
Ou vida amassada que anda à margem
Combustíveis queimando assumem rumo na estrada
Linhas e mais linhas traçadas na faixa levam ao caminho
dos ondes na margem para dentro
Pedras cortadas, florestas e fumaças à margem para fora da
estrada que é caminho de restevas
Nunca lavoura rica em grãos!
Serve apenas para juntar a vida e seguir à outra margem
Seguir o eco dessa estrada em trânsito a matar o silêncio motor a motor
O eco do fim que segue além-margem na sua pele de pedra e piche BR 101
Sigo e vou adiante!
Pedalando a margem da sua sede olho para o rio margeado pelo mangue
O rio sabe de suas margens e compreende olhares margeados de estradas
Passa sob essa ponte, sob outras pontes e segue para o mar
Depois margens de azuis vão além-horizonte
Ao fim da galáxia e mais além do que cabe pensar sobre o tempo
à margem do Cosmos fluindo sempre sua estrada de estrelas
Na BR 101 automóveis cantam o evangelho petrolífero
Máquinas afrontam cronômetros na faixa e a margem recolhe
os tributos que lhe cabem
Gases nos pulmões e carne enfumaçada
Óleo e mais óleo, depois mais à frente chamas de óleo
Homens travam guerras em torno do líquido espesso jorrado da terra
Na BR 101 segue o tráfego
E os caminhões em linha acelerada
E o vácuo de cada máquina jogando tudo à margem
E à margem o marginal caminha sua história
As luzes aumentam à esquerda e à direita
As marginais acompanham as cidades que ergueram-se
margeando a linha de pedras e piche
Viadutos suspendem fileiras de máquinas e gentes pulsando
Os rumores não param!
Vai a gana fluída por cima!
Grande rolo de amassar com borracha fumegando no asfalto
Fora da sua constância o desenho, o perigo da margem
O que não segue na veia não pode estar vivo
Sigo sem hesitar na contramão da margem
As pedras e o piche conhecem os que hesitam
No fluxo da outra mão da rodovia os vácuos retumbam lançando
à margem fúrias por destinos
As placas têm números e letras numa exata realidade perdida na margem
Símbolos informam de como seguir no fluxo
Nada me é importante sobre isso, vou à margem, na contramão da margem.

                                                                       Manguezal

Tipango tem a cor do mangue
A terra lodosa do mangue é barro em sua carne
Tipango é raiz maçarocada do mangue
Caranguejo azulado nas poeiras da água
Quando a maré sobe junto nos olhos saídos da lama
Tipango vira mar
Sua canoa desliza no espelho das águas do mangue
Com a força da lua Tipango vai remando
O mangue inundado sobe nas árvores
Um galho de mangue balança acima dos ombros
do canoeiro mergulhado de pássaro
Martim Pescador atravessa um peixe no bico e voa
Voa no espelho das águas do mangue onde escorre Tipango.
                                                              

                            Folhas de outono
Antes de caírem as folhas tomam cores terra
O vento que vem ventando desfolha os ais dessas cores
Nas árvores as seivas são sono chegando devagarinho
Os sonhos vão desfolhando, renascendo em outro sonho
Mais felizes mais exatos como a dança a desfolhar
Vão caindo lentamente procurando seu lugar
Os ventos vão baralhando as secas folhas do estar
O outono vai passando e o chão folhando em luar
Talvez senão meu olhar, a luz do outono é mais clara
Mais bela ao sol do passar sob as galhadas desnudas
Encolhidas no seu gesto de também se renovar
Do tempo que vem do ar assisto as folhas caindo
Como as ondas preguiçosas que vem à beira do mar.
            27 Vermelho
Eu que sempre apostei tudo
Ia com o vento pelo rumo dos ares
Já não aposto mais tudo
Aposto só a metade
Às vezes menos ainda
Por vezes nenhum vintém!
E nem no rumo dos ventos voo mais
Por vezes quebro uma esquina para me
livrar desse doido ventoso
Ora adentro uma cafeteria e fico a beber café
com uns pingos de licor
Pela vidraça observo o vento afastando velhas
folhas de jornais do meio fio
E as velhas mentiras dos jornais voam junto com
as folhas das árvores aos uivos do vento
Das poucas árvores dessa rua numerada de azul
Termino meu café e sigo quando o vento acalma-se
Vou revisando minhas fichas na vida
Meus amigos, meus sonhos, minha lavra…
E o vento sempre acossando e tentando levar-me
para rumos distantes que não quero ir.

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Sobre Poeta da Garrafa

Sou o Poeta da Garrafa. Odilon Machado de Lourenço nascido no pampa, ventado em minuanos, procurador de esmos e lonjuras. O que busca caminhos e olhos, palavras e sonhos. O que segue no claro do sol e da lua, o que navega e silencia à beleza. O que lavra a terra, águas e céu, plantador de passos, horizontes, sementes de amor e ternura. O que vai a colher miragens, tomar sombras, redemoinhar sem leme. Sou a distância dos dias e das noites que andam comigo contemplando o mundo. Sou brumas revoadas pelo som das auroras, amanhecido de velhas histórias e delírios. O veio, o nascedouro de uma loucura, mas sou sublime se contemplares meus olhos e ouvir meus sentidos. Sou folheador de paisagens, miscigenado brasileiro da Latino América, ouvidor de marulhos e brisas, caçador de estrelas. Olhador de fogueiras, enritmado de blues, samba e versos. Sou uma deriva com porto.
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4 respostas para Poemas ao Norte

  1. Cris Campos disse:

    Um poema paisagem, em todos os seus detalhes. Rico e belíssimo. Vou à leste.

  2. hangferrero disse:

    Os deuses protejam tua verve !!!

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