Poemas sobre História

           

            América Latina   

AOS LATINOS AMERICANOS.

O que fizeram teus deuses?

Enganaram-te?

América, raízes cortadas em espadas de pólvora

Ha! Verdes florestas plantadas de soja e mugidos de bois

Rios de mercúrio, areias, desertos de sal…

Na tua carne brotam os sepulcros de milenares indígenas

O grito de Sepé, a arte revolucionária de Sandino, Martí, Marighella, Juana Azurduy…

Tuas centenas de línguas assassinadas

A cerração cerrada em tuas montanhas de prata arrancadas pelas mãos do filho forçado em

miragem de fome

Teus oceanos abertos à sina da bandeira encaveirada

Coberto teu solo por milhões de fantasmas

Teus domínios roubados pelos deuses do teu sonho antecederam tua revolta

Onde estarão teus filhos senão mostrando a face ao verdugo?

Às misérias nascidas do asco europeu e ianque

Teus sambaquis não se renovam…

Tua imagem se revela solitária ao espelho Titicaca

Teus quilombolas sobem morros, e cercados de fúria e medo se sustentam com fuzis

apontados para o Mar da Guanabara

Teus camponeses lavram sanhas de fome em sesmarias tomadas por enclaves e solidões de

pampa

Levaram teu guano, o salitre, teu cobre, profanaram teu corpo, teu túmulo…

Escravizaram teus filhos

Os nomes da África moldaram nos ferros!

Trouxeram seus corpos e banzos os deixaram ao chicote da loucura

Sonha tua liberdade América!

Nas Chiapas a terra orvalhada em mais um dia!

Dançam com o corpo pintado no Araguaia, no Amazonas quimeram fogueiras, no

Putumaio acolhem o doce.

Voa nos olhos do puma ligeiro o aviso, em venenos de flechas o abraço da guerra acolhe

invasores

Teus tambores ecoam

A cor antiga da tua liberdade voa nas asas do condor

A marca de uma mão ensanguentada veio a ti oferecendo a morte vestida de batinas e

canhões.

Cordilheiras de neve debruçam tua face em teu seio de águas rubras de sangue, negras de

mangue, amarelas de ouro, cristalinas de pureza e prata.

Açoites em tua pele coroada de selvas

Andes, Antilhas, Galápagos…

Trópico e geleiras coabitando desertos, caatingas, campos, pedras que se elevam ao cume

do Aconcágua

O grito da fauna, o marulhar das águas, as vozes das ruas cheias de sol das tuas metrópoles

O sonho roubado da tua pele carcomida em lamentos

Os meteoros de máquinas a roer o teu seio

Terra do Fogo!

Cavernas de antigos caçadores patagônios, paraíso de gelo e pedras

Árvore que cai aos meus olhos…

Caríssima América!

Te tenho pura em meus braços de amor.

Calicute

Olhe cara, nunca vá até

o fundo!

Estamos podres demais para irmos ao fundo.

De qualquer natureza, qualquer estilhaço

Brisa do mar, galeão português

Avança a chuva!

Um raio espanca uma ilha.

Caiu a pena de Caminha.

Caiu chumbo.

Calicute! Oh Calicute!

Quem terá massacrado

Teu coração, cuja alcunha seja aquele que agrada?

Ganância? Estupidez? Choro ou riso?

Calicute!

Céu oriental de seus marujos.

Comércio e guerra.

Loucuras, meus amigos!

Traição! Sangue, ouro, especiarias.

Quantos se dissolveram nesses mares?

Velozes velas fugazes e rapaces

Insana cruz que afunilou o mundo.

Bendita miscigenação da humanidade.

Caminhos do Hermenegildo

PARA HOMERO SUAYA VASQUES RODRIGUES.

“Escribir no significa convertir lo real em palabras sino hacer que la palabra sea real”.

                                (Gabriel Garcia Márquez – Cien Años de Soledad)

Ondas do sul vislumbram o preciso mergulho de mil incertezas

Gaivota desliza em meus sonhos seu voo de neve

Marisco esconde na areia um segredo profano

Dos Juncos houve um silêncio que emana de mim

Acácias enraízam meus verbos ao longo das horas

Tramandaí suspira um alívio no som de uma concha

Pinhal lapida suas árvores em vento arredio de maio a setembro

Atlântica seduz navegantes nas águas que trazem versos à costa de uma poesia

Cassino joga minha sorte ao léu de uma onda rolada em espumas

Rainha do Mar protege seus filhos de um possível naufrágio em águas bravias

Capão da Canoa navega minha sombra na busca de nadas

Laranjal deitei meu sossego na rede dos dias de um pouso finito

Chuí desenreda o desejo de um abraço fraterno levado comigo

Dunas desenha miragens de visão indistinta na flor de um hibisco

Vento Sul desfolha minhas pálpebras em mar violento

Maravilha estende estrelas azuis no cimo das noites

Valverde oferta butiás às sereias amantes de algum pescador

Cálido Verão banha em areias o corpo dos pássaros

Areal afunda em mistérios o meu pensamento entregue aos ventos

Bem Querência aguarda a chegada dos filhos que foram para outro verão

Mar da Tranqüilidade é mulher sussurrando um amor impossível

Riacho deságua suas águas de branda corrente em sedento Netuno

Estrela Dalva alerta os amantes para outro começo em breve alvorada

Brisa serena dias e noites flutuando à esmo um carinho invisível

São Luís espraia enredos de luzes esparsas pintando telhados de cinza nevoento

Caracol anuncia meus ventos guardados nos anos de incríveis marulhos

Maresia salpica na pele o cimento do tempo que as águas levaram

Sol acentua sua força ao crestar uma vida amparada ao relento

Cruzeiro do Sul horizontes se perdem no fio do infinito

Em Lembrança areias injustas queimam papiros na sola dos pés

Bagre evola na alma o desejo da volta daquele que vai além das marés

Marinheiros ao Largo bebe calada um degredo sem volta

A Lua me sofre ao saber que me vou sem ter o seu beijo

Saudade marca em seu dorso os passos que vão para outros destinos

Vento Norte caminha comigo em rumo do fim

Nas ruas sem nome evoco a vontade de nunca partir.

Capitalismo

Olá Sr. Quépital!

Vou chamar-lhe assim para sarrear um pouco

Tenho coisas a dizer-lhe nesse poema

Coisas que não irão doer em você porque você não dói não é mesmo?

Sabe Sr. Quépital!

Tem umas pessoas morrendo em algumas guerras feitas por você

As armas não podem ficar velhas não é mesmo?

Tem uns planetas esperançosos que você lá não consiga chegar para fazer o que bem

entenda Sr Quépital

Seus astronautas não aguentam mais suas pílulas e farão greve bem ali naquela bazesinha

que você divide com os russos e os asiáticos

O mundo existe para você Sr. Quépital?

Suas estradas cheias de fumaça e sangue logo irão parar não é mesmo?

Eu rirei quando teus súditos tiverem de empurrar os automóveis até os postos de gasolina

e não encontrarem nenhuma gota

Quantas cartas você tem na manga Sr. Quépital?

Quantos motores a biodiesel suas fábricas farão em 24 horas?

Você sabe como não morrer Sr. Quépital?

As terras já não são tão férteis você sabe

A muito do seu veneno esterilizando o mundo Sr. Quépital

Escorrem para os rios e os peixes que não morrem você serve para seus criados nos

palácios do mundo Sr. Quépital

Você está ficando louco não é mesmo?

Ha! Mas há mais terras no terceiro mundo

É só derrubar umas árvores, construir umas hidroelétricas, afogar a fauna, criar mais

algumas fábricas e jogar o lixo ali mesmo

Quem se importa Sr. Quépital?

Sabe, há uns homens por cima do lodo que não aguentam mais Sr. Quépital

Eles não comem em sua mesa com os banqueiros, petroleiros e demais senhores da guerra

Eles querem sua carne Sr. Quépital!

Eles irão conquistar sua filha só para enganá-la

Não há mais amor Sr. Quépital!

Você tirou o tempo dos amantes, ninguém mais sabe amar Sr. Quépital!

Não há tempo para o amor, os despertadores não param

Aqui onde moro não tem pão amanhecido Sr. Quépital

Não tem farinha, nenhum tipo de cereal. Mas tem uma adaga que afio para você

Será um presente Sr. Quépital

Suas vísceras aguentariam a força de um operário?

Você se esconde demais Sr. Quépital

Não adianta blindar essa carinha de bom moço e trezentos dentes

Você pode cair Sr. Quépital!

E quando acontecer irá cair mal Sr. Quépital

Se você fosse um capoeira poderia cair bem, mas não é

E você sabe que fera caída é comida de outras feras Sr. Quépital

E há muita fome nesse império em ruínas

Há muita fome. E não é só de estômago!

É uma fome de quem não aguenta mais Sr. Quépital

Você está tranqüilo aí na Casa Branca, em Hong Kong, onde mais Sr. Quépital?

Há! Enganei-me, hoje fora à Estocolmo receber o Nobel Sr. Quépital

Ontem assinou um tratado para acabar uma guerra

Gastou suas armas velhas não é?

E aquelas etnias que estavam ali?

E aquelas bibliotecas?

Por acaso não tinham umas culturas ali Sr. Quépital?

Ha! Tem um buraco, é o que consegue ver de sua luneta Sr. Quépital

Você sempre reconstrói tudo não é mesmo?

Investimentos, empréstimos, bancarrotas do outro…

Como você gosta disso não é mesmo Sr. Quépital?

Seu alimento vai acabar Sr. Quépital

Há muita gente sabendo

Sabe gentes Sr. Quépital

Há muita informação por aí

Você não conseguirá chegar a Marte sem destruir a Terra Sr. Quépital?

Você não merece nenhuma estrela Sr. Quépital

Nem aquele soldado que está morrendo merece uma estrela, ele quer mesmo é um cigarro

feito por você Sr. Quépital

Para que honrarias se ele quer um cigarro

Um cigarretes para duas tragadas Sr. Quépital

Mande depois uma estrelinha para a mãe dele lá no Arizona e uma bandeira listrada Sr.

Quépital

Ele morreu buscando a paz não é mesmo?

Você não inova Sr. Quépital, tem gentes por aí manjando seu tipinho e eles sabem dar

rasteira Sr. Quépital

Sabe, eles tem uma adaga que afiam para você

Mas não precisa ter medo, não por agora

Eles estão descascando laranjas Sr. Quépital

Mas não são daquelas envenenadas que você conhece

Mas quando conhecê-las Sr. Quépital, estarás morto.

Não terás carne para tanta adaga Sr. Quépital.

                        Das veias abertas

Estamos nas tuas palavras

Somos um pensamento que habita, fustiga, encobre

o solo das desesperanças

Somos os cabelos perfumados da noite

O desentrave dos escombros jogados à lua

À escura lua

Somos loucos meteoros vagando à nuvem de suas

imensas loucuras

Somos o pão que deixa morrer seus deuses

Não alimentamos mentiras!

Somos o magma denso endurecendo sua face

O medo para sempre que carregas em sua fuga

Somos os que não morrem

Somos os que seguem lapidando a paz e a esperança

dentro da tua carne de sangue.

            Do nosso sangue

Andamos nos caminhos vendo flores morenas

Os olhares dos milênios no sangue da América

Somos o desenho riscado ao luar da esperança

Atravessamos as brisas, os dias de sol…

Batemos sempre forte por livres amanhãs

Não perdoamos os que deixaram abatidos nossos

antigos irmãos que diziam que a terra não havia de

ser vendida

Que não se renderam e deixaram a vida

Deixaram a luta para que outras mãos empunhassem a lança

A lança da revolta e da justiça

Do dia trevoso e sem deuses

Porque eles não vieram?

Se gostavam de sangue porque não vieram?

Seguimos com o nosso, nossa força

Estamos aqui!

Temos outros que são pequenos

Estes acariciamos e damos vida, para que

perpetue a paz nos passos que damos

E não seremos silêncio

Bravos seguimos.

Quilombo dos Palmares

PARA DONA LURDES.

Naquele ano de 1630 os escravos fugidos dos cativeiros ergueram

um quilombo

A opressão pintava com sangue

Ardia o ódio das vozes doridas

O senhor e o escravo

O reduto da luta, a maior delas:

O Quilombo dos Palmares!

Milhares de negros aldeados nessa parte da África

Nesse solo de além mar

De Alagoas à Pernambuco liberdade zumbizando no ar

Aqui onde a palmeira Pindoba é rainha e Zumbi é rei não se foge

do capitão do mato

Não embrenha-se na mata com a esperança de ser livre

Aqui o estalo do açoite não diz: morre maldito!

Aqui se resiste!

Nesse território não se morre fácil

O Quilombo é nosso!

Não tem senhor de engenho dizendo:

Dou-lhes farinha e carne seca

Toma um gole de cachaça e esquece tua dor insana

Deita-te no chão e esmorece, mas não sonha

Sonhar é proibido para ti peça feia e magra

Temos frutas na tropical paisagem

Caça, peixes, solo fértil

Argila para a cerâmica

Rapadura, aguardente

Feijão, batata- doce, mandioca

Somos milhares: dez mil, vinte mil, trinta mil, não sei…

Estas casas primitivas cobertas de folhas de palmeira

Paliçadas duplas de madeira

Estes homens da Guiné…

Mestiços, indígenas espalham-se por sessenta léguas

Todos eles com sua fé e ninguém rouba senão morre

São tradições africanas

Coisas que se falam de padrões e normas éticas

O território Palmarino não tem ordem lusitana

Corre, corre quem vem lá?

Sou fugido, quero paz, posso entrar nesse quilombo?

Pode sim! Aqui o amor à liberdade por 65 anos espantou o inimigo

Fizemos deles enxovalho

A nós pagavam tributos esses malditos senhores

De nós compravam alimentos esses mascates

Em troca davam-nos armas e esporro

Somos heterogêneos

Estão aí as mais variadas nações africanas

Algumas culturas da costa guineana, o catolicismo popular

Às vezes algum jagunço cai nas armadilhas do mato

Incursões policiais reconduzem outros à senzala

Ateiam fogo às choças

Os levam confiscados pra Recife

Esta regra desde 1669 existe por Bernardo Enriques, governador

dos mais patifes dessa tal capitania

Mas depois deles vieram outros e mais outros

Num certo tempo vieram mil de uma só vez

Foram expedições inúmeras

Algozes militares ou não

Todos eles reles!

Cristóvão Lins, Capitão André da Rocha, Manuel Lopes…

Eram todos repelidos na guerra de guerrilha

O movimento quilombola toda hora se mudava toda hora se partia

De repente pararam numa trégua

Custos de guerra deixaram em paz o grande e forte Ganga-Zumba

Palmares respirava

Fizeram um acordo

Delimitaram áreas para se viver em liberdade

Se é que se vive livre nessa terra

Tomaram suas armas

Ganga-Zumba envenenado morrera

Prenderam João Mulato, Canhonga…

Como os sonhos de Zumbi também prenderam

Liberdade é difícil eu bem sei

Queriam rendição?

Nova trégua?

Queriam o fim do quilombo?

Sempre quiseram e Palmares resistia

Um ataque final precedia

O que seria? O que seria?

Sertanismo de contrato

Capitulações das mais frias

Jorge Velho fez acordos com o marquês de Montebelo

Perdão para crimes, isenção de impostos, munições e armas

Tudo isso e muito mais naquela trama havia

Marcharam galhardamente para serem rechaçados estes

malditos vilões

Eram índios, eram brancos

Matando a negros e índios

Eram homens, eram homens

22 dias de cerco, chegavam lentos, tantos e tantos

Era o ano de 1694

A noite tomada de medo

Tomada de negros

A noite toda negra espreitava a retirada dos pretos

Zumbi fugia dia 6 de fevereiro

Foi um devaneio, um impulso, não sei…

Pelo quilombo foram morrendo, caindo feridos, sendo aprisionados,

fugindo…

Fugindo de novo?

Para onde? Para onde?

Pelo quilombo sangue negro cor da noite latejando gemidos

Ó África! Ó África!

Estas marcas que carrego é de ferro quente

Estes olhos negros são filhos teus ó continente

Por favor, me salva, me redime

Zumbi nosso rei morreu

Decapitaram-no e sua cabeça espetaram na praça principal de Recife

À vista de todos descarnando

Por favor, me salva dessas mãos ordinárias ó África

Me leva com você ao meu poente

Estão queimando tudo

Morte aos brancos estes lusos senhores!

Ainda lembro uma tarde mansa

Os pequenos brincavam

As mulheres cantavam

Depois lágrimas molharam este chão de mil estrelas

Numa noite de horrores

Rostos negros de horror e sangue!

Um mito, um homem…

Para estes que fugiam do martírio infindo

Eis um poema do tamanho da África.

Escadas para um lugar sem rumo

PARA WILLIAM RIBEIRO SANTOS.

Quantos séculos morreram na história?

Quanto sangue expirado nas guerras e na breve morte

Os estrépitos das fogueiras, das forcas, das guerras…

Quantos foram lapidados pelas lâminas num último silêncio?

Quanta fúria delineada pelos homens

Quantos morreram de sede fugindo da raiva no horizonte de mil poemas,

sob o sol e o caos de mil deuses

Em cima do mundo mais e mais escombros no suor de escravos famintos,

delirantes, que são os próprios demônios de si mesmo

Todo caos das armas do céu em raios e tufões vagam no espaço das mais tristes canções

Quantas fórmulas para entender a doidivana alma humana daqueles que carregam o

brasão da idolatria

Tantos sacrifícios a repetir-se na insanidade do tempo

A extinção de tantos povos que se elevam como último resquício na miscigenação de

tantas eras caladas no sangue de mil culturas

Até onde vai a árvore a produzir frutos antes do raio, antes do tempo e antes mesmo da

semente plantada nos mistérios

Minha cútis não corresponde à minha genética

Qual confusão de átomos deu-me a forma de homem nascido na aldeia próxima ao rio

de pedregulhos?

Que horizontes veremos na pólvora dos instintos caídos na marcha de obstáculos

pintados de indiferença, ódio e gosto de morte

Ah! Porque tanta raiva no voo das flechas a rasgar minha herança

Porque o eterno pesadelo gritante de dogmas ultrapassados cobertos de limo e ferrugem

Porque tanto gelo no universo das almas

Porque minha vida não para no intervalo do último momento.

                        Da Escola

                        AO AMIGO PIRAGIBE PAIXÃO.

Eu vejo na escola o redemoinho dos que colorem os corredores

As salas, as calçadas por onde também caminham os sonhos

Vejo o poema da vida recitado nos lábios de todos e todas

as miragens são verdades

Todas as perguntas querem ser e respostas encontramos nos olhos do outro

Buscamos por sábios nos livros, no continuum…

Criamos saberes, atitudes, mas somos cheios de fomes

Famintos navegamos à orla das bibliotecas, dos escribas, dos que mais viveram…

Ondas de livros, mapas, interdisciplinares caminhos…

Professores, comunidades, sonhos…

Eu vejo a História recitando poemas, incitando críticas…

A Geografia apontando nos mapas coisas do espaço, dos homens que somos

A Literatura discorrendo versos, desde o primeiro ao que fizermos agora

A Matemática buscando demonstrações de tudo que foi estudado

A Química compartilhando segredos das mais nobres alquimias

A Biologia adentrando florestas, rios, cantos de pássaros, sementes nascidas

As Artes dialogando objetos talhados na imagem do belo

A Filosofia buscando pensares no fogo da vida

A Sociologia migrando conceitos

A Física captando nos corpos a voz da matéria

Somos átomos falantes

Temos sentidos e voamos nas máquinas com fé nas estrelas

Falamos o português, somos filhos do Latim, irmãos de muitas línguas

E muitas línguas extinguimos, estas uivam pelo vento como

lobos nascidos da América e mortos na América

Somos ainda magma vivo, compartilhamos amor e somos polens dispersos

Somos a realidade e cremos no que nos inspira o aroma dos dias.

Invocação da utopia

           PARA MARÍLIA MACHADO.

Marília! Marília! Veja só

As fábricas fecharam as portas

Lacraram suas máquinas

Os bancos estão em chamas Marília

Dinamitaram as estátuas

Os símbolos vivos auto degredaram-se para o Ártico

Irão comer gelo Marília!

Os porta-aviões estão naufragando

Petroleiros atracam nos portos, todos vazios Marília

Os cinemas são drive-ins imensos de desertos

Nas lanchonetes não há mais hormônios Marília

Os presidiários saíram às ruas receber paz

O Nobel da paz!

Tem índios na Av. Osvaldo Aranha Marília

São poetas incríveis saídos de lendas

Antigas línguas na roda de samba lá na vila

A África esta sambando Marília

Apartheid é palavra de dicionário

Dicionário velho Marília

Agora tem comida adequada para todos

Não tem mais policiamento, nenhuma farda Marília

Ah! E todo mundo jura que um homem bondoso foi visita nos lares

Em todo o mundo Marília!

No Oriente e no Ocidente

Visitas noturnas

Todos sonharam Marília

Com diferença de fuso e tudo

Não há mais Impérios Marília

Você me pergunta por quê?

Cortaram o fio errado Marília.

Cortaram o fio errado…

Nesse poema

Tenho nesse poema guerras, civilizações, tratados

Tenho nesse poema demônios, subúrbios, luas, uivos…

Tenho nesse poema sentidos, estrelas, naturezas noturnas

Tenho nesse poema desenhos, estradas, montanhas, fêmeas alucinadas

Tenho nesse poema desertos, catástrofes, lavas de fogo

Tenho nesse poema fervor de neblinas, fronteiras em caos,

baías em pânico, bombas e flores

Tenho nesse poema cavacos de alma, insanos perigos, silêncios de mim.

                        A5

Em que mares a paisagem assume fragmento?

Em que árvore veloz pássaros não pousam?

Aqui colhemos canções em seca árvore nascida à

margem dos sonhos

Laminamos o estranho, inocentamos a pedra

No antiverso das amuradas guardamos o risco grungeado das horas

Em gases aprisionados elevamos palavras mensageiras do esmo

Desiluminamos luzes sobre a cidade

Ânforas anunciam navios que não aportam e não partem

Fumaças desprendem imagens lançadas de guerras e amores

E a dança, as chamas, o círculo incinerando o vídeo

A mosca mecânica parasitando a sanha camponesa

O vermelho tingindo com sangue a palavra

O imóvel sendo tinta, som, desejo longínquo, fotografia calada

Passos congestionando o sonoro das ruas

O silêncio assumindo as ondas do rádio

Um cego ciclope guardando o absconso homem

Tapumes inanimados querendo sair à rua e gritar

Astear a bandeira real na cara da vida

Arrimar a arte fraturada e exposta

A memória na imagem, a palavra na voz, o grito na escuta.

Wall Street

PARA O POETA JEFERSON TENÓRIO.

Tam, tam, tam!

Tocou a campainha, começou o jogo dos trilhões.

Aqui compramos tudo!

Isto quer dizer você que acha ser invendável

Achas?

Tens aí banho quente e nervos em órbita?

Os dados estão rolando para você

Quem irá sofrer após as carimbadas?

Ninguém quer perder uma tarde sem resultados desejados

Os trilhões estão dançando

Queres um exemplo?

A princesa deixará o seu palácio

Ela está pobre, sem apólices os súditos não podem amá-la

O amor é ganância, é a caixa forte do tio Patinhas

Ficamos obcecados pela avareza, podemos ser maiores que o Big Bang!

Vamos nascer de novo todas as galáxias

Aqui tenho a maquete desse novo universo borbulhando na taça de champanhe

Eu tenho todas as garrafas!

Queres brindar comigo?

Pare já o que estás fazendo!

Alguém terminará o trabalho, sempre há um novo jóquei assumindo os riscos

O que importa é a platéia, todos os lugares lotados e nenhum dividendo

Repassem as perdas!

O pouco que sei de matemática quebraria você, seus pedaços seriam estrelas

Consegues ver as estrelas espalhadas no cosmos?

Eu tenho um plano para você…

Teremos que passar esse caminho juntos

Eles, os meus amigos donos do ouro, das máquinas, do livre mercado…

Eles não querem criar nada além de cédulas

Fica bom assim ou você quer sofrer como aquele homem?

Aquele homem ali!

Ele está sofrendo!

Não consegue dormir aquele homem

Não é por falta de sono, nem cansaço

Isso ele tem muito!

Mas o coração que ele carrega é desvairado

Vive olhando para abismos aquele homem

E seu coração é um martelo que não cessa de bater em seu peito

Logo suas costelas serão trincadas pela aflição

Como vamos comprar aquele homem?

Temos de por um sorriso naquela boca

Há muitas securas naqueles lábios

Como vamos salvá-lo?

Temos de fazê-lo dormir

Senhora secretária cancele a cafeína daquele homem!

Digam à sua consciência para que não fume

A consciência desse homem está valendo uma fortuna

Cuide muito bem senhora secretária para que ninguém seja insincero com este homem

Avise a moça da padaria para ser cordial com ele

Que o açougueiro não trapaceie o estômago desse homem

Que o gás seja entregue sem demora, cuide muito bem desse detalhe senhora secretária!

Ah! E que seus amigos estejam à par de tudo viu senhora secretária

Não quero que produzam a tristeza nesse homem

Está acabando o tempo senhora secretária

Avise lá os executivos

Vendam tudo antes da baixa!

Atentem aos índices!

Precisamos faturar muito para salvar este homem

Ele está perdido senhora secretária

Como o faremos dormir?

Quem sabe dizemos a ele que a ganância não é o amor

Que o amor é amor puramente e não pode ser comprado

Mas senhora secretária não descuide-se

Volte e diga-me que aquele homem dormiu

Vá que ele resolva escrever coisas sobre a história…

Aquela que não queremos que nenhum alguém saiba

Sim. É preciso que o façamos dormir

Diga a seus vizinhos para oferecerem coisas que o acalmem senhora secretária

Falta de sono é um perigo

Põem dor nos olhos e lampejos tormentosos no pensar

Faça que sua miragem seja muito real senhora secretária

Dê-lhe um espelho que dorme

Uma música para o sonho nascido do sono

Faça o impossível senhora secretária

Ninguém sabe como a ilusão é real

Mas esse homem precisa dormir

Ele está muito cansado senhora secretária.

Rincão das Ilhas

AOS QUE FICARAM SOB O CHÃO, ACIMA DO CHÃO E FORA DO CHÃO.

A minha terra

Aquela terra onde caminhei nascendo

Aquela terra é um caminho habitando no mesmo lugar de onde saí nascendo

O que morreu ali são noites funéreas em minha alma

São os ossos do gado que ressecou sob a seca ao duelo do tempo

São as velhas casas que conheci taperas

Os nomes de quem as ergueram, de quem nelas moraram

De quem correu comigo pelo campo e hoje não sei onde, hoje não sei eu

As coxilhas tão verdes de campo, de trigo, chapéus de palha de trigo, de estômagos de trigo

Milharais, caturritas e sóis esverdeando

E sóis esturricando a carne camponesa e a memória de quem era memória quando fui

nascendo

Seus cavalos relinchando na noite

Correndo nos campos, nas canchas de ir pra frente nos campos

Os atalhos que fecharam-se por não haver passos minha terra

As suas cancelas ainda rangem minha memória que vai nascendo

Tenho vozes, sombras, pessoas que foram ao meu lado cavalgando em corredores que não

mais existem e agora são amigos que se foram

Vejo ainda minha terra a cor do sol relampeando nas facas dos que peleavam por farra no

final das suas tardes

Os goles de canha afogando seu sol

E vultos que meus olhos não trazem minha terra

Sei que existiram, ouvi cruzando na noite e iam ao passo num trotar de dar medo

Minha terra eu sou o seu silêncio, as pedras do seu rio, as árvores ancoradas da enchente

O golpear de um dourado que veio na linha me nascendo feliz

Os banhos de sanga, as vacas de leite, o alvoroço das manhãs na bicharada das casas

A poeira vermelha das suas estradas

Os berros do gado num fundo de campo

Um homem charqueando num varal de setembro

Aquelas casas de barro, chão batido e lenheiros com cheiro de paz

Os pêssegos das suas taperas na volta do rio amoado da águas

E quantas gentes nascidas de vós se foram pros ondes

E quantos ficaram palanquendo sua lavra me nascendo de longe.

 CARTA À ERNESTO MIGUEL LUZARDO DE SOUZA

   Quando nascestes a lua minguava no espaço, a grama estava seca no sul da América, o tempo marcava 2005 anos d.C, no limiar da aurora do instante em que fostes nascido para a vida aninhava-se o teu sonho na morfogênese ancestral de nossa origem.

   Há milhares de anos os humanos caminham sobre a Terra, não sabemos desde quando exatamente, entretanto este humano aprendeu a gravar seus pensamentos através da escrita, faz parte da natureza, busca adaptar-se àquilo que o cerca e assim se recria, como assim se recriam também as outras milhares de espécies que coabitam a Terra e têm sob o sol seus desenhos de vida na passagem dos dias. Guardamos uma reminiscência no tempo que leva a explicar nossa origem, embora a História da Civilização Humana seja uma constante busca de fatos, os mesmos são vistos sobre o impacto da dúvida e duvidar é preciso.

   Para compreender o “homem” caro Miguelito, devemos visualizar uma ancestral fogueira, lá onde as narrativas mais impressionantes contavam lendas, experiências de caçadas, as primeiras histórias. Mas estórias também existem meu caro, e exigem métodos especiais de transmiti-las de pai para filho, de gente para gentes. Todavia os humanos desenvolveram pensamento e linguagem para explicar o que os cerca, tentando definir-se criam suas teorias e ideologias na tentativa constante de entender o mundo e usando as mesmas para sobrepor aos semelhantes muitas vezes coisas avessas ao amor, palavra à qual em seu significado relaciona o fundamento da vida.

   Desde o domínio do fogo à domesticação dos animais e vegetais o “homem” inventa novas técnicas e tenta perceber o lugar que ocupa em meio à natureza, geralmente ignora tal percepção, percorre destruindo o que serve para recriá-lo e desdenha de tudo, inclusive do espelho.

   Através dos mitos que os humanos inventaram para dar um sentido ao universo e a vida, plantou-se também o pensamento racional que logo passaria a representar o universo como cosmos e disso tudo abstrai filosofias e poesias numa teimosa insistência de viver mais um dia para ver o que há e perguntar-se à todo momento. Eis um mundo estranho que irás descobrir em teus sentidos tão logo as estações forem passando pelos teus braços e teus sentidos forem ensinando-lhe. Descortinar-se-ão teus sonhos para os dias, dirão os loucos e os livros, que a História que foi contada por papagaios deu ao Novo Mundo os anos da escravidão que viaja pelos séculos na “contemporaneidade dos homens”.

   Eis que depois da difusão dos primeiros grupos humanos instituiu-se a invenção subordinativa da guerra, esta nos dias atuais mantém grandes frações do planeta no invólucro das ações mais cruentas das potencialidades humanas. Se tal violência te impressionar poderá ignorá-la, mas aconselho-te a revoltar-se. Tuas lágrimas e teu suor serão teu espírito livre caro irmão. Aproveita a colher frutos das árvores dos caminhos, assim intenso delírio enaltecerá o tempo como os ventos que criam fendas no inverossímil. Lembre-se, relâmpagos são os momentos mais caros a tocar teus instantes e eles também trarão sombras.

   Comecei a escrever esta quando tu nasceste, terminei hoje 30-03-2009, às 17:39 hs. Lá fora é outono. E hoje sei que não conseguirei terminá-la e irei inserindo e reescrevendo o que nada sei caríssimo menino. Só por teimosia de viver mais um dia.

De quando vou por ir

POR ONDE LEVARIA VOCÊ Ó POESIA.

Então fomos para Berlim

Navegar no Havel, ver palpitar a flor sob o muro da ausência

Levamos a cor dos olhos de Olga na marcha que ia pranteando na noite um trem sem

janelas, nem portas, nem volta

E fomos a Moscou buscar no róseo seio os segredos vermelhos

As chamas ardentes nascendo dos lagos da Praça Vermelha

E os lagos eram gentes saídas da foice, da fome e do medo

Em Nagasaki fomos

Saímos da espada dourada do sol do Japão enfumaçados de urânio

Fomos o grito obscuro da noite desnuda na Ilha

Os olhos da fome nas garras da águia

Fomos à Babilônia

Ver os jardins, ver a beleza, nem tronos nem deuses

A terra foi lavrada e nascem gentes, trigo e flores que dançam ao vento de outubro

Fomos à Porto Alegre

Vimos as águas do lago ferverem no sol que se esconde num hálito de luz que também se

perdeu

E seguimos pelas retas ruas do não saber para onde

Do não saber onde entrar e pedir algo que caiba em mais uma ausência

Em Montevidéu fomos

Aportamos no porto prateados das escurezas do Mar de la Plata

Bebemos a brisa olhando suas águas beijadas de inverno e não muito longe se ouvia num

tango o nascer de um amor começado nas docas

Fomos ao Serengueti

Em meio à planície deitada na terra africana

Sem medo das feras ouvidas no largo deitamos ao sol e vimos as estrelas da noite profunda

fincadas no dia com as cores da lua

Então viajamos à Ulan Bator

Movemos iurtas e deslocamos a cidade à outro tempo

Caminhamos a Mongólia pela terra e fomos com ela através e através…

Vimos no plano da estepe um arqueiro olhando horizontes, ora parava, ora seguia, ora

bebia num odre as miradas de Khan

Fomos à Pequim

Plantamos arrozais ao loess escavado em montanha nas terras chinesas

Amuralhados numa torre esperamos o galope dos arqueiros ventados por lobos

Além erguiam-se olhos dragoneados numa seda vermelha, avançava no mar a cidade

flutuando na busca das águas com terra e vozes sem fim

E por mais navegado o Mar da China viu queimando em suas águas um mundo que ia

pintando em vermelho ancorar-se na morte azulada de lama ao fundo do mar

Em New Orleans fomos

Inebriados pelo blues do Mississipi apanhamos algodão

Tintamos sangue nas cordas da guitarra e fomos a luz da liberdade caminhada numa

estrada sem caronas

Fomos à Lisboa

Sentamos ao pé da estátua de Pessoa e vimos o mundo com ele

Bebemos vinho junto ao Tejo e falamos do tempo

Depois voltamos navegados de terras distantes com porões abarrotados de injustiças

A Uluru fomos

Nas areias da Austrália nômades caminharam em nossos passos

E com nós carregaram a Pedra Sagrada como um templo móvel nas areias

Fomos aos gelos do mundo

Conhecemos o fogo que arde sem chamas, petrificamos as mãos e olhamos nos olhos

palavras escritas desenhadas na neve.

Imagem rupestre

Ranhura intrépida da pedra

Desenho calcado em lanhaços do tempo…

Saio dos olhos nos traços da pedra

Vou a navegar no espaço azul a sensação da tua imagem

Que mãos fizeram a arte nestas pedras?

Que me dizes dos séculos?

Que me dizes dos sóis que lanharam tua imagem?

Quantos céus vergastaram a planura da tua face de pedra?

Que tempestades carnearam teu corpo em silêncio?

Que histórias me trazes nesse índex de pedra?

Que palavras desenham tua voz ensimesmada de pedra?

Veio enrochado nas pedras o que és e o que sou além da tua imagem?

Que importa à ti desenho da pedra essas águas revoltas que te assolam?

Ó arte da pedra o que me explicas além da beleza?

O que fazes alem de ser o que vejo rabiscado na pedra?

Um índio

Quando criança antes de aprender a ler lia imagens

Folheava livros, revistas, gibis e coisas da imaginação

Gostava de ver como viviam os indígenas nas florestas

Então teve uma lança que ganhou de outro índio do outro lado da sanga

Passou de guerreiro à guerreiro esta lança de madeira

Esta lança matou muitas feras na floresta imaginada

Trouxe muita comida para a oca este índio possuidor desta lança

Nunca feriu nada fora do sonho essa lança

Nunca teve sangue essa brava lança de criança

Teve também um poderoso arco da madeira flexível do angico verde e

borracha da câmara da bicicleta do pai

Suas setas eram terríveis aos inimigos de sua tribo

Quando chegou mais próximo de acertar uma pomba pousada no galho de pau-ferro

A seta acertou o galho abaixo da pomba

A pomba olhou o caçador e voou para além da outra seta que perdeu-se no ar

A criança riu e voltou para a oca com outros pombos flechados antes de perder suas setas

Essa criança às vezes olhava para o pai e dizia querer ser índio

O pai ria um sorriso sempre aberto e feliz

E sem comentar poder ou não ser o sonho da criança uma possibilidade

Pois os sonhos de criança sempre são possíveis

E crianças têm direito de sonhar ser índio, sonhar ser digno, sonhar por ter vontade de

sonhar qualquer coisa além dos olhos da realidade

Dizia sempre o pai nessa hora de sonho ao abraçar seu curumim – Meu terno e querido

filho.

Poema para o fim do mundo

Hoje não vamos comemorar nada!

As adegas do rei estão vazias e os vinhedos ressecados pelo frio

Não há garrafas para abrir e nenhuma alegria a ser exaltada

Hoje não vamos comemorar nada!

Há muitas tolices nas vizinhanças de qualquer lugar do mundo

Há pessoas fugindo de muitos lugares, se soltam ao mar e tentam chegar em outra terra

onde gentes esperam para dizer-lhes que também não os querem!

Não há espaço! Suas sombras são demais por aqui!

Não há terra, não há comida e o amor ninguém sabe dele

Hoje não vamos comemorar nada!

Tem uns aviões não tripulados destruindo escolas e matando crianças por aí, mas ninguém

pode culpar um avião sem piloto e a bandeira não serve nessa hora

Hoje não vamos comemorar nada!

O terrível fim do mundo está aí prestes a chegar em altas ondas e talvez te cubram os

quentes átomos da guerra antes de chegar o fim do mundo

Um índio se enforcou, pois para ele e sua cultura o fim do mundo já chegou há muito tempo

e fim do mundo do vizinho é do outro lado do muro

Do outro lado é pátio alheio e não conheço o vizinho, não sei o nome dele, me parece tão

distante meu vizinho que acho até que fala outra língua e pouco sei sobre a panela vazia do

vizinho que não deve ter estômago para aguentar a hipocrisia do outro vizinho que também

não sei o nome e não o conheço, sei que passa por ali, na rua umas caras que chamamos de

vizinhos

Hoje não devemos comemorar nada!

E já que falei em muros lembrei-me dos astronautas, lá de cima se vê que tudo por aqui são

muros, a muralha da China é só o começo de um mundo que tem fronteiras para tudo

Tens passaporte? Não, não tenho, detesto burocracia e carimbadores de passaporte,

detesto muros!

Fábricas de passaportes não me levarão à lua que daqui eu vejo além muro

Mas agora vou deixar a lua lá no céu e sair da varanda de casa

Meu vizinho está chegando e preciso fechar a porta para seguir não o conhecendo, para

seguir não sabendo quem ele é, nem que língua fala meu vizinho…

Seu muro é tão alto que talvez não queira compartilhar nada meu vizinho e acho melhor

pensar que não precisarei pedir uma xícara de açúcar a ele pois imagino que o mesmo está

pensando a mesma coisa que eu e vai fechar também sua porta meu vizinho.

Hoje não devemos comemorar nada!

Por certo não devemos comemorar nada.

Cartas

Havia uma carta sobre a mesa

Uma carta que não fora enviada às mãos da espera

E a carta não veio palavras não foram nascidas há outrem

Havia uma carta sendo aberta

Palavras distantes davam-se aos olhos de um mundo que lia o mundo

que veio tintado de negro

Eram sonhos, histórias, segredos, eram mapas de amor…?

Havia uma carta na mão do carteiro

Veio da guerra e falava de amor, dizia saudades e medo

Dizia da volta, mas a volta foi carta escrita por outro

Havia uma carta guardada ao tempo, o mesmo foi breve e a carta apagou-se

Outra carta escrita ao meio guardou coisas na memória

Na gaveta de baixo da memória uma carta faz começo de nada

Uma carta atravessou o mar, vieram palavras de terra e dunas de areia

E quando aberta as dunas viraram lágrimas, a terra lembranças e o mar

distância azulada navegando palavras

Uma carta partiu para sempre e o destino não trouxe palavras de volta

A carta sem resposta é mais triste que a palavra tristeza

Uma carta voltou de repente e o mundo calou-se

Uma carta que volta são palavras que morrem

Saber que palavras voltaram é morrer em silêncio.

Poema historiográfico

O homem a carregar fardos de trigo cortados à foice, sem terra e sem trigo não era você

A mulher sufocada de prantos, faminta e sedenta, caminhando sem rumo com filhos e filhas

seguindo seu rumo não era você

O homem pensando ser homem no giro do cosmos, fazendo perguntas em meio das dúvidas

quis ser mas não foi e não era você

A mulher desenhada por pérfidas línguas, por pensar e ser ela no direito de ser foi

queimada na praça e não era você

O homem navegado à mares da morte, flutuando em suas náuseas amarrado ao porão

estava banzo e não era você

A mulher na lavoura, facão em punho, cortada do sol, das folhas da cana e da fria comida

não era você

O homem na terra adentrado, encarvoado de minas e pulmões de minérios aterrado nos

túneis do inferno não era você

A mulher querendo ser ela nasceu na cultura que isso não pode, se respeita a cultura, mas

não a mulher que não era você.

O homem aturdido da guerra, aleijado da bomba e demais cicatrizes deixadas no gene não

era você

A mulher cansada da fábrica, desolada da esteira e despida do rosto ganhou um carimbo e

não era você

O homem saído do fundo da noite com sonhos perdidos e dias dormidos no sangue das ruas

não era você

A mulher que caminha ao lado do homem, olhando pra frente com força e com fé na luta

dos dias poderá ser vocês.

Uma mulher

DAS HISTÓRIAS QUE VIERAM LÁ DO PASSO.

Ali onde o Rio Itacurubi corre manso e baixo

Onde a Ilha deu nome ao Passo

Margeada de árvores há uma cruz

Uma mulher morrera ali onde estão as pedras

Vinha ferida a mulher

Machucada das violências caiu ali antes do Passo

Sem lavar suas feridas beijou o chão antes do Passo

Talvez fosse noite como a carne do seu corpo e

caísse sem chegar antes do Passo

Talvez os frescores da relva lhe saciaram a sede ali antes do Passo

Talvez a senzala fosse longe em sua fuga até ali antes do Passo

Ou talvez o Passo assistira sua passagem sem barqueiro

Seu nome corre livre pelo campo

Os ventos e o silêncio dizem-me seu nome

As águas do rio molham sua boca ungida pela terra ali no Passo.

Poema fugaz

Ao sol queimando no horizonte Drummond carregava o mundo sobre as costas

operárias da poesia

O vi sentado à beira mar falando em mímicas

O Brasil era a Bandeira de Manuel e tremulava no alto mastro os ventos estrelados de Bilac

Vinícius casava novamente num poema com anéis e bons scotchs

Quintana ria no café do Majestic e Murilo se encontrava entre céu e mar na

poesia pintalgada de oceanos

Seguia eu nesse caminho, lendo versos visitados por condores e caiu à minha

pena Castro Álvares

Ensimesmado de tragédias com as vozes vitimadas nos porões de uma nau

entregue à sorte da barbárie

Em Manhattan vi Walt Whitman serenando as dores dos soldados na Guerra de Secessão

Suas feridas tinham a cor da pátria

Na Espanha encontrei Garcia Lorca sangrando em sua morte

Seu corpo carregava a pólvora traiçoeira de Franco e seus olhos ciganos floresciam

na noite como estrelas que surgem nascendo no cosmos

Nos gelos da Rússia avistei Maiakóvisk em seu último soluço

Depois de tanto verso iluminando o camponês apontava com uma foice os trilhos

da Sibéria destinando aos Kulaks e Nepmans as fábricas vermelhas

E não pode amanhecer mais uma aurora

Na Ilha Negra guardada pelo Chile Neruda apanhava com as mãos enconchadas

no Pacífico as espumas de Allende

Lavando o rosto nas imagens dos dias via um general traindo seu povo e um

sonho de mundo desfeito de novo

Vi Ferreira Gullar vomitando o Poema Sujo

Despatriado pelas fardas do Brasil preso em torturas

Estive com Martí em seu degredo

Quebrando pedras e folheando pergaminhos, lutando o vi fazendo fogo e caindo

aos tiros espanhóis Cuba ergueu-se livre

E vi Florbela desenhando flores num jardim de mais amores

Seu sorriso era rosa orvalhada de magias e tristezas encantadas

Estive com Dante, Virgílio, Homero, Lucano, Horácio e Ovídio

Caminhamos nas veredas do inferno, eu era o sétimo

Pusemos fogo no limbo e queimamos os demônios que saíam das águas do rio Aqueronte

Vi o poeta da cidade de Baalbeck atravessando os séculos a recitar entre  nevoeiros

e  palácios

Em suas mãos flutuava uma lira enterrada na alma

Percorri as eróticas curvas dos poemas de Hilda e me vi enfumaçado numa noite de amor

Ela sorria com a boca da noite, úmida e ardente

Na França vi Rimbaud sumindo ao mundo

Das estradas arrancava solidões e desertos, gentes e ouro, armas e sangue

Fulminado em luxúria deitou-se na liteira da noite africana velejado de bêbadas estrelas

Vi as dores de Lila caminhando no mundo e tive insônia ao saber estar só

Antes da aurora vi Jaime Braun, cavalo encilhado, dando rédeas no pampa

Seus olhos entristeciam-se ao ver cercados na antiga terra de Sepé

Cada gole do amargo chimarrão reluzia em sua fronte e antigas vozes eriçadas

com lanças saíam dos olhos como a fúria do mar tempestuoso

Nos galpões seus versos saem das bocas gaudérias e juntam-se ao picumã que

escreve a memória ensanguentada da América

Vi Lamarca arrancando os símbolos da farda

Escrevendo sonetos de amor à pátria expatriada

Lutando a buscar liberdade, rugindo no silvo dos ares como um eco que vai

Exasperado de ácido cambaleava Allen Guinsberg num uivo sem fim

E os ecos da voz soaram jazz beat num caminho de hipsters

Vi Cruz e Souza angariando imagens em meio à neblina

As luzes vinham de cores vivazes e desterrados nasciam perdidos na pátria

Nas matas pantaneiras encontrei Manoel de Barros

Sua voz de pássaro voou para mim, fomos ao cerne do sol colher entranhas nascidas

nas folhas das auroras e achamos Thiago de Mello mimetizado numa árvore de luz

Em Paraíba, no engenho da dor, vi balbuciando sob o sol a voz de Augusto

Em meio ao canavial anjos ventavam à sombra seu desespero

Num navio atracado no porto em Lisboa escrevia Pessoa

Nem se importava com a demora de zarparem

Ele já havia voltado do mundo e escrevia sobre o nada

Juntei-me a Safo no rochedo de Lêucade

À margem de nossas loucuras jogamo-nos ao céu do mar em fúria como lavas

Desde então somos pedras, augustas pedras gregas

Aqui não houveram nomes

Apenas pessoas de boa vontade.

Poema do tempo

O tempo nasceu quando?

Perguntou a menininha ao seu vovô

Um senhor de bastante idade chamado Domundo

O velhinho retirou os óculos sem pressa

E sorrindo disse à neta

O tempo nasceu longe

Muito antes de o vovô nascer

Até parte da memória ele perdeu

Foram colocando nomes nele vovô?

Muitos nomes pequena

Alguns o chamam calendário

Outros estações…

Sabe vovô isso parece muito longe mesmo

Se pudesse perguntaria também àquele pássaro ali

Qual pássaro pequena?

Aquele ali que vai passando muito longe vovô.

Helena

Aquele gole em seus olhos

Era vinho?

Era mar?

Era bela imensidão?

Era a Grécia navegando delírios de Agamenon?

Ou talvez em parte apenas a raiva de Menelau

O mar cresceu de navios, era a Grécia navegando

Esparta em fúria no Mar!

Quem sabe Páris soubesse que ninguém a tocaria?

Quem sabe Heitor não morresse de frente aos olhos do pai?

Talvez cavalo não fosse bom presente para deuses

Nem muralhas fossem céu

Quem sabe Aquiles perdoasse o sangue na sua espada e Príamo não chorasse?

Mas Aquiles não perdoa e Tróia cai

Era Tróia uma cidade erguida à beira do Egeu

Tão queimada, tão ruína, tão saqueada de seus nadas, ali à beira do Egeu.

Passo da Ilha

Nessas margens onde o rio tem águas rasas

Pedras negras marulham a calma

Na memória dessas pedras vozes d’águas

Carretas varando rangidos

Gaúchos de outroras…

Nessas margens onde o rio guarda fantasmas

As águas vão cantando a canção das pedras negras

São patas de cavalos

Combates

Lançassos

São gritos de tauras

Trincheiras te margearam em outro tempo…

Quanta espreita?

Que tocaias velho Passo?

Quais gaudérios lastimados caíram em tuas águas?

E quanto cavalo bueno varou tuas águas crescidas?

Quanta tropa marcou fundo o caminho da picada e bebeu da tua água?

Tudo passa velho Passo!

Bem sabes tu de tuas águas

Quem varou-te?

Quem bebeu-te?

Quem passou-te uma só vez?

Vão-se as areias…

Folhas podres revolvidas por quem passa

Vão descendo e se acalmando nos segredos de tuas águas

Bem lá embaixo silenciam pedras negras, águas rasas.

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12 respostas para Poemas sobre História

  1. FABIO MACHADO DOS SANTOS disse:

    Aeeee meu bruxo!!!!
    Curti p/ caramba teu blog, conheço mt bem a tua força de vontade e suparação, e sei q ainda vai mt longe. Parabéns… e q Deus t guie …
    Grande abraço…

  2. perykyto disse:

    GRANDE BAGA!!!!
    É ISSO AÍ, ADOREI FICOU MUITO LEGAL MESMO, PARABÉNS, SUCESSO , QUE OXALÁ ILUMINE SEMPRE O TEU CAMINHAR, SEJA NOITE OU SEJA DIA!!!!! ABRAÇÃO

  3. Que os teus versos extrapolem o tempo e te levem ao lugar que bem mereces: o reconhecimento do tempo e da crítica. Parabéns, Poeta da Garrafa! Versos incríveis os seus! Sucesso!

  4. carla machado de lourenço disse:

    Mano velho! sou tua fã incondicional! SUCESSO!!!

  5. Conheci seu trabalho através da tua irmã ! Pessoa extraordinária que pude conhecer através de outra pessoa extraordinária. Belíssimo trabalho estou encantada…

  6. Parabéns cara, seus poemas são muito bons, especialmente o primeiro da história que achei muito bem elaborado. Continua assim!…

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